A Voz do Espírito santo: A Oração em Línguas

Evangélicos e católicos rezam em línguas estranhas! Que língua é essa, que não faz sentido, que não tem significado?

Você já deve ter visto as cenas de fervor religioso que ocorrem em igrejas católicas e templos evangélicos. Mas as cenas que você vai ver são raras: evangélicos e católicos rezam em línguas estranhas! Que língua é essa, que não faz sentido, que não tem significado? Que parece mera repetição de sílabas?

Aos olhos da fé, essa estranha oração tem um sentido e tem uma história, que vem de dois mil anos atrás. É o que você vai ver neste novo episódio da série "Êxtase, Ritos Sagrados".

São Paulo, igreja de Nossa Senhora do Brasil. As orações diante do altar-mor preparam os devotos para o que vem a seguir: os católicos carismáticos acreditam que nestas celebrações recebem os dons do espírito santo. Este é o que eles chamam de o dom de orar em línguas estranhas.

“Esse tipo de exaltação na fala permite a você ficar até horas e horas louvando e exaltando a Deus. É uma linguagem que não tem tradução, não tem interpretação. Você não pensa, não articula, não se trata de uma linguagem identificável, em termos de linguística ela não tem estrutura que possa analisar e traduzir. Isso é a oração em línguas”, explica Reinaldo Beserra dos Reis, membro do Comitê Internacional da Renovação Carismática.

Sorocaba, São Paulo. Em outra celebração carismática, os devotos entram em êxtase.

Ainda em São Paulo, um templo evangélico: a Igreja Assembléia de Deus Betésda. É uma religião pentecostal, protestante e não católica - mas também ali os crentes oram em línguas estranhas.

“Quando ele está falando em línguas estranhas, ele está falando com deus numa língua que para ele é mistério. Ela é um fenômeno de transbordamento, nós dizemos que é ultrapassar a barreira da linguagem”, observa o pastor Ricardo Gondim, presidente da Assembléia de Deus Betesda.

“Eu sinto que é a manifestação do poder de Deus. Que ali Deus realmente confirma a sua presença”, acredita Id Feres, aposentado.

Mas qual é o fundamento desta prática religiosa? Conta a bíblia que antes de subir ao céu Jesus Cristo prometeu enviar a seus apóstolos o Espírito Santo. Na celebração de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa judaica, em Jerusalém, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos de cristo, inclusive a Virgem Maria, na forma de línguas de fogo. Então ocorreu o fenômeno das línguas: os apóstolos falavam em sua própria língua, provavelmente o aramaico. E ainda assim, muitas testemunhas que não conheciam o aramaico porque eram de outras regiões entendiam o que os apóstolos diziam.

“No Pentecostes houve aquela efusão grande do Espírito Santo. É interessante que o primeiro fenômeno é que o que os apóstolos falavam, todos entendiam. Depois houve muitas vezes esse fenômeno de glossolalia, de falar em línguas diferentes”, revela Dom Alberto Taveira, arcebispo de Palmas/TO, e diretor espiritual da Renovação Carismática.

“Aquele fenômeno que se deu no dia de Pentecostes não ficou restrito ao dia de Pentecostes, essa promessa iria se repetir em outras ocasiões”, assegura o pastor Gondim.

“Quando você está muito feliz com algo que acontece que você começa a cantarolar muito mais usando os sons do que as palavras”, lembra Dom Alberto Taveira.

O pastor Ricardo Gondim cita uma frase do Apóstolo Paulo: “as línguas estranhas são os gemidos inexprimíveis do espírito que em mim ora ao pai”.

Um pastor evangélico americano, negro, quase cego, inaugurou a era moderna do movimento pentecostal. Seu nome: William Seymour. No início do Século 20, este homem promovia cultos barulhentos, com muito canto, muita dança, gritos, línguas estranhas - êxtase espiritual dentro de um templo numa rua que se tornaria célebre: a Rua Azuza, em Los Angeles.

Em abril de 1906, repórteres do "Los Angeles Daily Times" assistiram às celebrações do pastor Seymour e puseram na primeira página do jornal: “Espantosa babel de línguas!”, “Nova seita de fanáticos à solta!”, “Cenas impressionantes na noite da Rua Azuza!”.

Foi assim, há quase cem anos, que o movimento pentecostal voltou: primeiro, nas igrejas evangélicas. Mais recentemente, nos anos 60, também na Igreja Católica.

“No momento em que nós estamos orando em línguas, é o próprio espírito que vem e nos conduz a esse momento de oração“, acha Raquel Bergamin, estudante.

“É uma experiência com Deus“, ressalta Lílian dos Santos, balconista.

“Toda essa experiência que vivemos tem como fruto e consequência uma paz interior muito grande”, lembra Marcos Volcan, líder da Renovação Carismática.

“As pessoas da minha família dizem ‘você enlouqueceu, isso aí é coisa da sua cabeça, você criou isso’, mas eu tinha dentro de mim uma consciência muito clara. Algo de extraordinário estava acontecendo comigo”, conta Ironi Spuldaro, pregador da Renovação Carismática.

“Eu estou louvando a Deus, na verdade, com o meu falar em línguas”, explica Sílvia Bocalini, administradora de imóveis.

“O êxtase, o que nós entendemos como êxtase, é esse momento em que minhas emoções ficam tocadas pela presença e pelo contato com o sobrenatural. E com um Deus que acreditamos que é vivo e verdadeiro”, conclui Gondim, presidente da Assembléia de Deus Betesda.

“O que é certo é que nós estamos num ambiente de fé pedindo por isso e Deus realiza, e Deus é glorificado”, finaliza Dom Alberto Taveira.

fonte: Fantástico da Rede Globo